Não vou cometer a imprudência de dizer que organizei e planejei essa viagem. Apesar do meu profundo interesse em desvendar os mistérios daquele país e conhecer o seu povo, foi a Silvia, a minha companheira, que organizou cada detalhe do roteiro, nossas paradas, hospedagens, tempos e movimentos como boa ariana que é. Eu sou completamente aquariano e caso algo não tenha ocorrido conforme o planejado com certeza a culpa é minha.
Chegamos a Lima depois de meses de preparativos e expectativas saindo de Porto Alegre e a partir de uma escala em Guarulhos, com nossas mochilas, cambio de moedas, e todas as rotinas de praxe, inclusive as rigorosas revistas nos respectivos Aeroportos. Nosso roteiro incluiu Nazca e Cuzco com destino final em Machu Pichu e retorno à Cuzco para compras. Um tour pelos locais que sonhamos visitar desde crianças. Minha companheira, já experimentada pelas outras aventuras que fizemos juntos ficou super conectada com cada detalhe da viagem. Na tradição de “Diários de Motocicleta” e “Na Estrada” resolvemos como bons herdeiros da contracultura uma travessia descolada que nos permitiu não só vislumbrar novas paragens, mas também ampliar nossa percepção sobre as gentes do lugar, seus costumes, sua história, enfim sentir odores e sabores diversos, beber da fonte do conhecimento de seu nativos e ibero descendentes.
Ainda em São Paulo embarcamos no Airbus da Lan Chile e para nossa tranquilidade o avião era confortável com assentos espaçosos e telas para cada passageiro com programação individual de filmes para preencher as 06 horas que permanecemos a bordo. Escolhi um documentário sobre a Crise de 2008 nos EUA bem interessante. Nesse passado, infelizmente ainda recente, os grandes grupos financeiros norte americanos como o Citygroup, Merryl Linch e muitos outros apostaram o dinheiro dos seus correntistas e de fundos de pensão no mercado de hipotecas e sumiram com suas poupanças sem que vários governos democratas ou republicanos algo fizessem desembocando finalmente na crise de liquidez de 2008 onde vários investidores foram à falência. Os EUA então mergulharam na recessão e milhões de pessoas amargaram o desemprego. Qual o nexo de tudo isso com a viagem? Leio no jornal local de Lima que milhares de espanhóis buscam trabalho no Peru em uma verdadeira virada do fluxo migratório como também hoje ocorre no Brasil e não posso deixar de refletir sobre as consequências funestas para a população desprotegida e o impacto ao meio ambiente do mundo todo por causa de uma minoria de banqueiros, que como vimos no documentário, pela sua arrogância, impuseram-se um mundo a parte de jatinhos executivos e carros com blindagem e como os estados são complacentes e cúmplices com essas corporações e seus dirigentes que coabitam os mesmos salões e que na verdade são seus pares.
Chegamos em Lima sem problemas e tivemos uma primeira noite desperta no Hostel Flying Dog localizado no bairro de Miraflores, desacostumados pelos ruídos que vinham da rua dos bares e o transito intenso de uma cidade absolutamente cosmopolita. O simpático bairro de Miraflores possui intenso movimento de turistas de vários países, bares, restaurantes, danceterias, lojas de magazine, shoppings e um transito frenético de veículos que adoram usar suas buzinas a qualquer hora do dia ou da noite. Perto do Hostel existe uma linda praça (Parque Kennedy) onde gatos são abandonados pelos donos e que convivem com os transeuntes e moradores vivendo da assistência e generosidade da população.
Lima é uma cidade moderna, com prédios novos, e muitas construções em estilo neoclássico e até mesmo vitoriano. A cidade foi fundada, conforme expressão de Darcy Ribeiro, como modelo de exploração mercantil-escravista centralizado na metrópole, daí sua localização costeira, para facilitar o desvio das riquezas do país aos conquistadores europeus e depois como sede das oligarquias regionais que impuseram sua liderança após a independência da Espanha por instigação da Inglaterra e pela mão do caudilho argentino San Martin. Com uma população composta 80% por cholos, ladinos de origem indígena, e indígenas e uma pequena minoria de brancos por auto definição, na verdade mestiços, frutos da miscigenação de europeus, integrantes da classe média e alta da sociedade, nota-se nas lojas e bares placas do governo proibindo e advertindo contra a discriminação, de uma minoria branca, que se imagina europeia, contra a maioria indígena que habita o país.
No dia seguinte que amanheceu frio, nublado e com uma bruma marinha decidimos fazer um tuor com um ônibus de dois andares com plataforma o Mirabus (60 soles por pessoa), passeio típico de turistas e visitar os pontos altos da história da cidade. Subimos a bordo e enfrentamos o frio intenso para conhecer os prédios históricos, com sua arquitetura particular, uma mistura de antigo e moderno, influência nativa e ibérica. Conhecemos a Catedral de Lima, o Palácio do Governo, o Centro Histórico com seus prédios neoclássicos e vitorianos.
Diferente do Brasil, que foi construído graças a mão de obra do escravo africano, o Peru foi criado pela força de trabalho do indígena. Podemos encontrar seus traços em todos os lugares, ainda servindo aos estrangeiros com graça particular e extrema polidez. Mesmo aqui, como em toda a A. Latina, os valores estéticos apreciados são os europeus, negando a esse povo sua natural beleza e graça. Na verdade é o estrangeiro a excrescência, mas a mass media não deixa isso transparecer. Esse erroneamente denominado “Novo Mundo” que na verdade é velho e sábio tem muito a ensinar ao visitante. Na tarde visitamos o Shopping Larcomar na costa do Pacifico, no bairro Miraflores e aproveitamos para pegar informações no posto de Tourist Information sobre a aquisição de passagens de ônibus para Ica, nosso próximo destino para conhecermos as Islas Ballestas e sua reserva marinha. Descobrimos que era possível comprar as passagens de ônibus em uma agência dentro de um supermercado próximo. A noite caminhamos pelas ruas e visitamos feiras de artesanato nativo e comemos batatas fritas tradicionais com cerveja Kuskeña bem gelada em um tradicional restaurante de rua. Aproveitei para terminar o livro de Marvin Harris: “Vacas, Cerdos, Guerras e Brujas”, uma edição espanhola que comprei num sebo em Porto Alegre e não pude deixar de discordar do seu final. O autor critica duramente a contracultura dos anos 70 e os movimentos naturalistas resurgidos nessa época, em oposição ao duro pensamento racionalista e ao reducionismo cientifico que ele apoia e considera superior para a evolução humana. Não posso concordar com sua visão reducionista, pois a liberdade de crenças e costumes, a quebra de dogmas pétreos da humanidade, frutos ainda da visão filosófica escolástica nesse momento mágico da humanidade que surgiu no pós-guerra após o “baby boom” serviu como contraponto para se estabelecer novas visões mais ecológicas, mais holísticas do planeta em oposição ao materialismo mecanicista e ao monoteísmo judaico-cristão. Não fosse isso os fascistas estariam de novo desfilando seus estandartes em uma sociedade mais tecnológica e corrupta. No Peru podemos perceber a contradição de Harris, os autóctones da América do Sul estão bem vivos, caminham pelas ruas em um movimento crescente portando sua cultura ancestral na certa modificada pela presença predatória do conquistador, mas ainda sobrevivente.
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| Catedral de Lima |
Diferente do Brasil, que foi construído graças a mão de obra do escravo africano, o Peru foi criado pela força de trabalho do indígena. Podemos encontrar seus traços em todos os lugares, ainda servindo aos estrangeiros com graça particular e extrema polidez. Mesmo aqui, como em toda a A. Latina, os valores estéticos apreciados são os europeus, negando a esse povo sua natural beleza e graça. Na verdade é o estrangeiro a excrescência, mas a mass media não deixa isso transparecer. Esse erroneamente denominado “Novo Mundo” que na verdade é velho e sábio tem muito a ensinar ao visitante. Na tarde visitamos o Shopping Larcomar na costa do Pacifico, no bairro Miraflores e aproveitamos para pegar informações no posto de Tourist Information sobre a aquisição de passagens de ônibus para Ica, nosso próximo destino para conhecermos as Islas Ballestas e sua reserva marinha. Descobrimos que era possível comprar as passagens de ônibus em uma agência dentro de um supermercado próximo. A noite caminhamos pelas ruas e visitamos feiras de artesanato nativo e comemos batatas fritas tradicionais com cerveja Kuskeña bem gelada em um tradicional restaurante de rua. Aproveitei para terminar o livro de Marvin Harris: “Vacas, Cerdos, Guerras e Brujas”, uma edição espanhola que comprei num sebo em Porto Alegre e não pude deixar de discordar do seu final. O autor critica duramente a contracultura dos anos 70 e os movimentos naturalistas resurgidos nessa época, em oposição ao duro pensamento racionalista e ao reducionismo cientifico que ele apoia e considera superior para a evolução humana. Não posso concordar com sua visão reducionista, pois a liberdade de crenças e costumes, a quebra de dogmas pétreos da humanidade, frutos ainda da visão filosófica escolástica nesse momento mágico da humanidade que surgiu no pós-guerra após o “baby boom” serviu como contraponto para se estabelecer novas visões mais ecológicas, mais holísticas do planeta em oposição ao materialismo mecanicista e ao monoteísmo judaico-cristão. Não fosse isso os fascistas estariam de novo desfilando seus estandartes em uma sociedade mais tecnológica e corrupta. No Peru podemos perceber a contradição de Harris, os autóctones da América do Sul estão bem vivos, caminham pelas ruas em um movimento crescente portando sua cultura ancestral na certa modificada pela presença predatória do conquistador, mas ainda sobrevivente.
Na manhã do dia seguinte deixamos nossas bagagens na estação de ônibus da Cruz Del Sur e seguimos para visitar o Museo Nacional de Arqueologia, Antropologia e História del Peru localizado em uma linda praça arborizada cercada de restaurantes. Seu acervo integra cerâmica, tecidos, e peças de metalurgia de uma beleza extraordinária. Após a visita tentamos encontrar um restaurante para nós e pensamos achar um que tivesse algum prato vegetariano para a Silvia que não come nenhum tipo de carne. Sentamos em um lugar simpático e perguntamos a garçonete se tinha um prato vegetariano. Ela indicou a sopa da entrada, de Sêmola, para satisfação da Silvia. Quando o prato foi servido, para nossa surpresa, boiava um pedaço de frango. Lá como aqui no Rio Grande do Sul frango não é carne. Tive que comer tudo sozinho e saímos de lá para a estação de Ônibus para seguir viagem para Ica, em direção às Islas Balestas e a Reserva Federal de Paracas em pleno deserto costeiro.









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